Os Galhos do Casamento, O Diabo Tem Mil Filhos e outros filmes de apelo popular produzidos em Curitiba nos anos 70 e 80 continuam esquecidos do público e da crítica especializada
Por Ayrton Baptista Junior
Houve um sonho de cinema popular paranaense entre os anos 70 e 80. Sonho, não. Realidade! Aprendendo no improviso, longe de faculdades e sem apoio de governos, um grupo radicado em Curitiba colocou em prática a máxima do Cinema Novo (“Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça”) mesmo com pretensões totalmente alheias às da turma de Glauber Rocha.
Não se espante caso você não tenha ouvido falar destes filmes: Os Galhos do Casamento, Deu a Louca em Vila Velha, Inocentes, porém Ingênuos, Caminhos Contrários, O Diabo Tem Mil Filhos, E Ninguém Ficou de Pé. Encontrar as cópias é tarefa para caçadores da arca perdida.
Um dos pontos de partida dessa história é um ônibus de Camboriú, que trouxe para Curitiba o menino Giovani Cesconetto. Aos 13 anos, ele fugiu da casa dos pais. “Conhecia o motorista. Viajei escondido dentro de uma caixa do papelão”, lembra o hoje dono de um teatro infantil, o Espaço da Criança, em Santa Felicidade.
Antes de se tornar ator, diretor, roteirista e cenógrafo, Cesconetto viveu três meses na Praça Santos Andrade antes de ser levado a um internato, onde começou a estudar teatro. Entre um e outro ensaio, arranjou emprego numa malharia e conheceu o tecelão Arlindo Ponzio, recém-chegado de Arapongas.
Ponzio sonhava com cinema desde a infância. Falava das fitas que via e até das que sequer existiam:
— O bandido entrou na igreja, roubou a santa e a cidade inteira foi atrás dele. Você viu esse filme?
— Não. Passou aonde?
— Em lugar nenhum. Eu inventei o filme agora.
Enquanto Cesconetto e Ponzio seguiam com a prosa na malharia, Florisbal Lopes vendia equipamentos de cinema, trabalhava para distribuidoras de filmes e até já havia produzido um longa-metragem: O Diabo Tem Mil Filhos, com direção e argumento do capixaba Adalberto Pena Filho. O diabo é que a Censura proibiu a exibição. Naqueles dias de 1970, a moral e os bons costumes não deixariam de condenar uma mulher (Sabrina Marchesini) que se casava virgem e se via obrigada a trair o marido (Rogério Dias, cultuado artista plástico) apenas para cumprir um pacto demoníaco (Nelson Morrison).
Catarinense de Mafra, Florisbal engoliu o prejuízo dos dias perdidos em Antonina e Caiobá e foi à Rua do Triunfo, fervo do cinema da Boca do Lixo paulistana. Em improvisadas mesas de bares daquela rua, cerca de cem filmes eram planejados anualmente. Planejados e realizados, é bom frisar. Dramas, policiais, comédias eróticas e tudo o mais que fosse rápido, barato e de retorno imediato. Não havia tempo para elucubrações.
Sem pensar muito, mais um catarinense, Euclides Fantin, de Itá, aceitou ser o fotógrafo da nova trama de Florisbal: E Ninguém Ficou de Pé, uma sátira ao faroeste italiano. O diretor paulista José Vedovato (cenógrafo de imponentes produções, como O Sobrado, de 1956) uniu durante dois meses de filmagem ídolos de telecatch (Brasão, Metralha e Jóia, O Psicodélico) e o apelo circense dos Irmãos Queirolo.
“Até hoje, passam esse filme em Campo do Tenente”, orgulha-se Florisbal, que apostou mais fichas nos Queirolo em Inocentes, Porém Ingênuos. “Mas ficou tão ruim que eu nem fiz questão de passar”, afirma o produtor. Ele parecia prever que a próxima sessão seria melhor.
Na porta da Globo
“Eu nunca tinha visto uma câmera. Por isso, trouxe de São Paulo o Hercules Brezeghello, um profissional experiente, que emprestou todo o equipamento. E o Florisbal também me apresentou o Euclides Fantin, que era câmera e já tinha feito direção de fotografia”, conta Giovanni Cesconetto.
Com a câmera já disponível e com o dinheiro de Ponzio, Cesconetto foi atrás de um ator famoso na porta da Rede Globo, no Rio de Janeiro. Tarcisio Meira e Francisco Cuoco estavam apressados naquela tarde. “Quem parou foi o Cláudio Cavalcanti. Acertamos o cachê naquela hora. E, para a nossa surpresa, ele veio mesmo”. Quando desembarcou em Curitiba, Cavalcanti ainda saboreava o sucesso da novela Irmãos Coragem.
A primeira produção da dupla Ponzio-Cesconetto foi Caminhos Contrários, filmada em bairros da capital, como o Sítio Cercado e o Atuba. Na época, os curitibanos só viam engarrafamento quando o locutor Sergio Chapelin falava do trânsito de São Paulo no Jornal Nacional. Por isso, a dupla conseguiu com facilidade duas placas de trânsito para que as filmagens de perseguições de carros não fossem atrapalhadas em Curitiba.
Filme feito, Sergio Chapelin fez a voz do trailer, Claudio Cavalcanti permaneceu em Curitiba para a divulgação, Ponzio comprou minutos de publicidade na TV Paranaense e, brilhando, os olhos da equipe viram filas de mais uma de quadra em busca um lugar no cine São João, que abrigava 2 mil espectadores. “Em Curitiba foi um sucesso, mas só em Curitiba”, recorda Cesconetto.
Cadê as peladas?
Ponzio levou Caminhos Contrários para exibidores paulistanos e cariocas. Os caminhos pareciam mesmo contrários fora do Paraná. No Rio, o poderoso Severiano Ribeiro, dono da maior rede de sala de cinemas do país, perguntou: “Tem mulher pelada?”. Não tinha. E a paciência de Severiano não passou do terceiro minuto.
Se o pedido era por mulher pelada, Os Galhos do Casamento oferecia três divas do cinema erótico: Aldine Müller, Helena Ramos e Zélia Martins. Às estrelas importadas de São Paulo, o produtor Florisbal Lopes adicionou o primeiro time de atores curitibanos dos anos 70: Nelson Morrison, Lala Schneider, José Maria Santos, Roberto Menghini, Danilo Avelleda e Airton Müller. Delcy D’Ávila também foi chamada, mas achou a trama um pouco picante e pulou fora d’Os Galhos.
Gilda Elisa, que, em seguida, estrelaria a novela Maria Bueno, da TV Paraná, ficou com o papel de Delcy, sua tia. Antes, porém, Gilda avisou o diretor peruano Sergio Segall, cineasta recém-saído da publicidade paranaense: “Cena de cama eu não faço. Meu pai me mata!”.
Como o cartaz de Os Galhos do Casamento destacava a sensualidade das atrizes, ficava claro que o programa era para homem. Naqueles dias, não era recomendável que uma mulher respeitável entrasse num cinema para uma história de tamanho ultraje — a de esposas revoltadas que arranjavam amantes. Pegava mal até para mulheres do elenco do filme. “A Lala Schneider foi durante uma sessão normal, depois da estreia, com um lenço na cabeça para não ser reconhecida”, entrega, anos depois, Gilda Elisa.
Sobrou filme, faltou público
Depois de ver o cine São João lotado durante as exibições de Caminhos Contrários, Arlindo Ponzio verificou entusiasmado que a sobra do material filmado dava paramais uma fita. Junto com os sempre fiéis Giovani Cesconetto e Euclides Fantin, o produtor bancou mais cenas em Ponta Grossa e nasceu Deu a Louca em Vila Velha, uma comédia com perseguições em todas as velocidades, de charretes a caminhões.
Cesconetto se desiludiu: “Ninguém viu. A estreia teve apenas um espectador”. O solitário da plateia não era parente de ninguém da equipe. “Era o ator que fazia um padre”, diz. Nem os figurantes apareceram, talvez porque já estivessem satisfeitos com os tantos churrascos pagos por Ponzio.
Se em Ponta Grossa ninguém viu, no Norte do estado Deu a Louca em Vila Velha garantiu os primeiros 15 minutos de fama para o então estudante de teatro Reinaldo Bessa, que apareceu em duas cenas: “Quando fui visitar minha família, em Jacarezinho, vi o cartaz do filme, com a minha foto, no supermercado. Amigos da família me reconheceram”, diverte-se o colunista social da Gazeta do Povo.
Um ônibus e ponto final
Mesmo sem nudez, Caminhos Contrários agradou ao italiano Rafaelle Rossi, diretor do primeiro longa brasileiro de sexo explícito, Coisas Eróticas, de 1982. Rossi comprou os filmes, manteve a trama e os créditos com os nomes da equipe paranaense. O homem de Coisas, no entanto, fez alterações. “O Rossi enxertou sexo explícito e mudou o nome”, revela Cesconetto. E, assim, Caminhos Contrários viajou país a fora com o sugestivo título de Bacanal do Terceiro Grau. “Vendemos o filme por 30 latas de negativo e um ônibus”, conta.
Se a onda era sexo explícito, Ponzio e Cesconetto resolveram apostar nela e usaram o ônibus para trazer de São Paulo algumas atrizes para rodar as cenas de Campeonato de Sexo. O filão, entretanto, não correspondia ao cinema pensado pelo grupo uma década antes — e todos se afastaram da produção.
A televisão fisgou o ator Giovanni Cesconetto, que vestiu a pele do Palhaço Pingão. Mesmo destino teve o câmera Euclides Fantin. Arlindo Ponzio, que já possuía lojas de disco no centro de Curitiba, foi atrás de outro sonho, o do ouro, e tornou-se um dos garimpeiros do Rio Madeira. Morreu há uma década, longe do cinema.
Também distante das câmeras, porém muito vivo, Florisbal Lopes vive num sítio em Mafra, Santa Catarina. “Eu gosto de mato, passarinho e erva-mate”, diz, sem pedir homenagem ao cinema que ele sonhou. E fez.
(Matéria publicada na revista Helena nº 4, da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná)
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29.10.14
6.7.12
E assim... conheceram as maravilhosas histórias de Coisas Eróticas
Amanhã fará 30 anos que o primeiro filme pornô brasileiro foi exibido no Cine Windsor, na Avenida Ipiranga, 974, no centro de São Paulo.
No dia 7 de julho de 1982, filas imensas se formaram na calçada do cinema por uma multidão ávida em conferir se nossos atores e atrizes eram pau (e xoxota) para toda obra.
Para comemorar a data, Hugo Moura, Denise Godinho e Bruno Graziano vão lançar o documentário A Primeira Vez do Cinema Brasileiro no mesmo local em que Coisas Eróticas fez história.
O trio de diretores correu atrás de maravilhosas histórias para contar a trajetória de Coisas Eróticas, filme do italiano Raffaele Rossi que entrou em cartaz em plena ditadura militar e apenas dois dias depois de o Brasil ser eliminado da Copa pela seleção da Itália.
Em um trabalho incansável e de perseverança, Hugo, Denise e Bruno localizaram personagens que trabalharam no filme e que até então ninguém sabia do paradeiro deles.
Paralelamente à direção do documentário, Hugo e Denise escreveram um livro delicioso sobre Coisas Eróticas, que traz muitos detalhes sobre o filme que acabaram não entrando no documentário.
Quem quiser saber como Coisas Eróticas entrou para a história do cinema, não pode perder a oportunidade de, quem sabe, enfrentar uma fila imensa neste sábado para ver o documentário e também uma nova exibição do primeiro filme pornô tupiniquim. E conferir também um bate-papo com atores de Coisas Eróticas, parentes do cineasta Raffaele e os diretores de A Primeira Vez do Cinema Brasileiro.
Mais uma vez Coisas Eróticas fará história.
Programação
18:00 – Abertura do coquetel de lançamento
19:00 – Exibição de “A Primeira Vez do Cinema Brasileiro”
20:30 – Coquetel de intervalo
21:00 – Bate-papo com atores e equipe de “Coisas Eróticas”
22:00 – Exibição de “Coisas Eróticas”
Para ver o trailer de A Primeira Vez do Cinema Brasileiro, clique aqui.
No dia 7 de julho de 1982, filas imensas se formaram na calçada do cinema por uma multidão ávida em conferir se nossos atores e atrizes eram pau (e xoxota) para toda obra.
Para comemorar a data, Hugo Moura, Denise Godinho e Bruno Graziano vão lançar o documentário A Primeira Vez do Cinema Brasileiro no mesmo local em que Coisas Eróticas fez história.
O trio de diretores correu atrás de maravilhosas histórias para contar a trajetória de Coisas Eróticas, filme do italiano Raffaele Rossi que entrou em cartaz em plena ditadura militar e apenas dois dias depois de o Brasil ser eliminado da Copa pela seleção da Itália.
Em um trabalho incansável e de perseverança, Hugo, Denise e Bruno localizaram personagens que trabalharam no filme e que até então ninguém sabia do paradeiro deles.
Paralelamente à direção do documentário, Hugo e Denise escreveram um livro delicioso sobre Coisas Eróticas, que traz muitos detalhes sobre o filme que acabaram não entrando no documentário.
Quem quiser saber como Coisas Eróticas entrou para a história do cinema, não pode perder a oportunidade de, quem sabe, enfrentar uma fila imensa neste sábado para ver o documentário e também uma nova exibição do primeiro filme pornô tupiniquim. E conferir também um bate-papo com atores de Coisas Eróticas, parentes do cineasta Raffaele e os diretores de A Primeira Vez do Cinema Brasileiro.
Mais uma vez Coisas Eróticas fará história.
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19:00 – Exibição de “A Primeira Vez do Cinema Brasileiro”
20:30 – Coquetel de intervalo
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23.6.12
A primeira vez em uma sala especial
Quase beirando os 40 anos de idade, pela primeira vez na vida vou assistir a um filme pornográfico em uma sala de cinema. No dia 7 de julho completam-se 30 anos da exibição de Coisas Eróticas, o primeiro filme pornô brasileiro, que foi produzido em São Paulo. Para comemorar a data, os jornalistas Hugo Moura e Denise Godinho vão lançar o documentário A Primeira Vez do Cinema Brasileiro, no Cine Windsor, mesmo local onde milhares de paulistanos (e também moradores da cidade que nasceram em outros Estados e países) disputaram uma cadeira em 1982 para ver coisas muito mais que eróticas. Junto com o documentário será exibido também o primeiro pornô brasileiro.Quando o cineasta Raffaele Rossi começou a planejar a direção de Coisas Eróticas no ano de 1981 em seu escritório na Boca do Lixo, eu ainda não tinha completado 8 anos. Rossi estava empolgado com o lançamento no Brasil do filme japonês Império dos Sentidos, em plena ditadura militar. Considerado um filme de arte, Império chamou a atenção por algumas cenas de sexo explícito que recheavam a história de um amor obsessivo e doentio entre uma empregada e seu patrão. O filme, dirigido por Nagisa Oshima, em 1976, foi liberado sem cortes pelo Conselho Superior de Censura em 11 de setembro de 1980, depois de ter sido exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo graças a um mandado judicial.
Rossi percebeu que poderia ficar rico (e ficou) ao explorar o filão da sacanagem. Se Império já tinha causado tanto auê com míseras sequências de sexo explícito, como o público brasileiro reagiria diante de uma filme totalmente pornográfico e com atores e atrizes falando a sua língua? A recepção do povo foi imediata, com imensas filas tomando a calçada da Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, desde que o filme estreou no Cine Windsor. Cópias de Coisas Eróticas percorreram outras salas do Brasil. Oficialmente, 4,7 milhões de pessoas viram o filme. Mas os herdeiros do cineasta acreditam que esse número seja muito maior, pois a fiscalização do público era falha na época.
O lançamento do primeiro filme pornográfico brasileiro foi o começo do fim do cinema popular feito em São Paulo, principalmente das pornochanchadas (que lotavam as salas desde os anos 70), essas sim eróticas, mas hoje inocentes perto de muita coisa mostrada atualmente na televisão. Por causa do sucesso de Coisas Eróticas, os exibidores só queriam levar para as telas filmes libidinosos. Para poder pagar as contas no final do mês, diretores de renome como José Mojica Marins, o Zé do Caixão, Alfredo Sternheim e Ody Fraga tiveram de aderir ao pornô. Mas o mercado de filmes pornográficos entrou em decadência quase uma década depois, com a chegada dos aparelhos de videocassete no País.
Em 1988, tentei entrar pela primeira vez em um cinema pornô, mesmo tendo 14 anos de idade. Peguei a carteira de trabalho de um amigo que na época tinha 18 anos e se parecia comigo. Só tive o trabalho de descolar a foto dele do documento e colar uma minha, na qual ostentava um bigode ralo e mais sem-vergonha que o próprio filme que gostaria de ver. Não lembro qual filme estava em cartaz no Cine Plaza, no Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, zona sul, mas entrei na fila confiante que o bilheteiro iria engolir a minha falsificação grosseira. Não tive a oportunidade de tirar essa prova, pois os ingressos acabaram justamente no momento em que chegou a minha vez de comprar.
Após a frustrada experiência, nunca mais tentei colocar os pés em um cinema pornô novamente. Anos depois, assisti em vídeo a quase todos os filmes do gênero produzidos na Boca e me tornei um pesquisador do assunto. Agora chegou a hora de tirar o atraso, mas dessa vez profissionalmente.
Texto publicado originalmente na edição de 17 de fevereiro de 2012 do Jornal da Tarde
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1.9.06
O retorno de Márcia Ferro, a rainha da Boca do Lixo de SP

Em 1983, quanto tinha 21 anos de idade, ela encarou o convite que recebeu para participar de um filme pornográfico na Boca do Lixo de São Paulo como uma oportunidade de ser uma estrela do cinema . Em 2006, já com 44 anos, 10 deles afastados de produções cinematográficas e teatrais do gênero, ela recebeu uma proposta para voltar a estrelar um filme pornô. Desempregada e com uma filha de 7 anos para criar, Márcia Ferro dessa vez não pensou na fama. Mas sim em ter um ganha-pão.
Paulistana de Santana, na Zona Norte da Capital, Márcia Ferro foi uma das principais estrelas do cinema da Boca do Lixo, local do centro da cidade responsável pela produção de metade dos filmes brasileiros, de todos os gêneros cinematográficos, entre os anos 70 e 80 (ver texto abaixo). Guias de filmes registram que Márcia Ferro tem em seu currículo pelo menos 28 filmes em seis anos de cinema. A atriz diz que foram 38.
Márcia Ferro é a caçula de três irmãos. Sua família não enfrentava dificuldades financeiras, mas para ela era “desestruturada”. A atriz não gosta muito de entrar em detalhes sobre sua vida no ambiente familiar. Comenta apenas que a mãe era carinhosa com os filhos, ao contrário do pai. “Era um homem violento, que dominava a casa com mão ferro, pois era do regime militar (hoje é tenente reformado). Do jeito que tratava os outros na rua, tratava a gente dentro de casa”, recorda.
Com a morte da mãe, em 1981, Márcia Ferro não viu clima para continuar morando com o pai e decidiu sair de casa em busca de liberdade. Nesse mesmo ano, a futura atriz havia perdido a virgindade com um namorado quatro meses antes de completar 19 anos, o que gerou uma baita discussão com o pai. Afinal, Márcia Ferro sempre tinha estudado em colégios de freiras e costumava ouvir dizer que sexo somente era permitido depois do casamento. O desejo da família era que ela estudasse odontologia. "Mas, por meu pai, eu não cuidaria da boca de homens".
Dois anos depois de sair de casa, Márcia Ferro foi abordada por um produtor enquanto caminhava na Avenida Cásper Líbero, no Centro da cidade. Ele perguntou se ela não queria participar de um filme pornô. Márcia titubeou, mas decidiu deixar seu telefone com o produtor. Dias depois ela estava participando de “Gemidos e Sussurros”, dirigido pelo italiano Rafaelle Rossi (é dele o primeiro filme pornô brasileiro, chamado “Coisas Eróticas”, de 1981).
A primeira vez de Márcia Ferro em frente às câmeras não foi uma experiência maravilhosa. “Tive que fazer uma cena de lesbianismo e pra minha cabeça isso foi um choque”, conta. Sem nenhum trauma, a atriz continuou filmando, dessa vez atuando com homens. E resolveu que seguiria carreira no cinema pornô. “Fiz por dinheiro, mas fiz com muito amor e gostando como profissão”, afirma. Márcia Ferro ficou famosa também por participar de cenas de sexo com cavalos. Muitos desses filmes de zoofilia foram dirigidos pelo filipino Juan Bajon e fizeram sucesso no exterior.
Com o fim do cinema da Boca do Lixo, graças à concorrência desleal dos filmes estrangeiros feitos para o videocassete que começaram a chegar no Brasil no início dos anos 90, Márcia Ferro decidiu voltar-se ao teatro de sexo explícito. Ela e o ator pornô Osvaldo Cirilo compraram em sociedade o teatro Terra Nova, na Bela Vista, no Centro de São Paulo. O nome do local passou a ser Teatro Márcia Ferro, provavelmente por causa da força do nome da atriz, o que ajudou a atrair público para o local.
Em 1992, com a morte de Cirilo por Aids, Márcia Ferro decidiu largar tudo. Ela nega que o ator tenha sido seu marido, ao contrário do que afirmam até hoje imprensa e fãs. “Quando o Cirilo morreu pensei que estava ficando órfã mais uma vez. Para mim, ele era tudo o que eu não tinha mais em minha família, a pessoa que me ajudou a se levantar na vida. Uma pessoa que marcou muito minha vida, mas não foi meu marido. Resolvi vender o teatro pois não era a mesma coisa sem ele”.
"Distribuí currículos, mas não consegui emprego"
Ao abandonar a carreira de atriz e empresária de espetáculos teatrais, Márcia Ferro se casou e foi morar num sítio em Caucaia do Alto, na região de Cotia, na Grande São Paulo. A atriz recorda que trabalhou como monitora de uma creche naquela cidade. No final de 1998, Márcia Ferro deu à luz uma menina (a atriz tem um filho de 24 anos de um outro relacionamento, mas ela se limita a dizer apenas que o rapaz é advogado). Mais uma vez a atriz viu sua família se desestruturar.
Em maio de 1999, o extinto jornal Notícias Populares deu em manchete de primeira página: "Primeira-dama pornô passa fome em Cotia". Isso porque, de acordo com a reportagem, ela foi abandonada pelo marido, que também se recusava a assinar a autorização de venda da chácara para que ambos ficassem com sua parte do dinheiro. Hoje, a atriz nega que tenha passado fome e acredita que suas palavras tenham sido mal interpretadas.
"Não tem como (ter passado fome). Morava numa chácara, onde tinha terra para plantar e estava perto de agricultores e sitiantes. Não estava mais na atividade de cinema, mas estava trabalhando, era monitora numa creche", afirma Márcia. Depois de finalmente conseguir se separar do marido judicialmente, a atriz resolveu tentar vida nova na Capital paulista, onde voltou a morar há um ano e seis meses. "Vendi o sítio e comprei apartamento aqui para recomeçar a minha vida".
Mas a sorte não estava do lado de Márcia. Percorreu vários postos de trabalho em São Paulo, mas não conseguia emprego. "Distribui currículos (para as vagas) de monitora de creche e recepcionista de hotel. Eu fiz um curso de governança em hotelaria, mas nunca fui chamada para uma entrevista, um teste". Como se tudo estivesse perdido, sem mais nem menos Márcia viu a história de 1983 se repetindo ao reencontrar um amigo da Boca do Lixo no primeiro semestre deste ano.
Segundo Márcia, ela estava caminhando nas imediações da Rua Sete de Abril quando percebeu que alguém chamava por seu nome. Na terceira vez, Márcia olhou para trás e reconheceu o amigo. Entre uma conversa e outra, ele perguntou se Márcia não tinha vontade em voltar a trabalhar em filmes pornô. A "futura atriz pela segunda vez" novamente ficou na dúvida, mas pensou que dessa vez ela tinha uma criança para sustentar. E fechou contrato para filmar o DVD "Idade da Loba", lançado recentemente pelo selo Brasileirinhas.
A atriz ainda não sabe se voltará a participar de outro filme. Com parte do dinheiro do filme, ela comprou outro apartamento, que aluga para poder ter uma renda mensal. Márcia compara as circunstâncias dos dois convites que recebeu para trabalhar com filmes pornô. "Na primeira vez era uma oportunidade que estavam me dando para brilhar no cinema. Eu não ia perder meu bem, então abracei. Agora eu tinha uma filha para criar, sem ninguém querendo me dar emprego. Tem dedo de Deus nessa história".
Centro da Capital era "Hollywood brasileira"
São Paulo teve uma central de produções de cinema, que ficava na Rua do Triunfo, entre os bairros Santa Ifigênia e Luz, na região central de São Paulo. A polícia batizou essa área da cidade como Boca do Lixo nos anos 50 por causa da concentração de prostitutas e malandros nas redondezas. Décadas depois, a expressão Boca do Lixo seria ostentada com orgulho pelos cineastas que freqüentavam o Centro de São Paulo por causa da quantidade de filmes que saíram de lá.
O cinema da Boca do Lixo não viveu apenas de filmes pornográficos e das populares pornochanchadas (comédias maliciosas). Do final dos anos 50 até o início dos 80, a região produziu trabalhos de todos os gêneros cinematográficos: policial, faroeste, drama e horror, entre outros. O Pagador de Promessas (1962) – dirigido por Anselmo Duarte e o único filme brasileiro que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, na França – foi cria da Boca do Lixo.
Segundo o jornalista Alfredo Sternheim, em seu livro “Cinema da Boca – Dicionário de Diretores”, a produção da Boca chegou a responder por mais de 50% dos filmes lançados no Brasil. Tudo isso sem receber verba estatal. Sternheim também dirigiu filmes na Boca do Lixo. E também José Mojica Marins, o Zé do Caixão, Rogério Sganzerla e Carlos Reichenbach, entre outros cineastas renomados. Dos diretores citados, apenas Sternheim e Marins decidiram rodar filmes pornôs anos depois.
Os filmes da Boca tinham espaço nos cinemas por causa da lei de obrigatoriedade de exibições de produções brasileiras que vigorava durante o regime militar. Nos anos 80, os cineastas da Boca tiveram de começar a rodar filmes pornôs para concorrer com as produções estrangeiras que começaram a chegar no Brasil. Foi nessa década que surgiram estrelas como Márcia Ferro. O cinema pornográfico da Boca chegou ao fim no final dos anos 80 com a chegada no Brasil das fitas de videocassetes com filmes estrangeiros.
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