14.11.09

O horror de Fauzi Mansur

Depois de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, Fauzi Mansur foi um dos cineastas brasileiros que voltaram sua atenção ao gênero horror (na foto ao lado, de propriedade da revista Quem e tirada no ano passado, Mansur aparece entre as atrizes Nívea Stelmann e Bárbara Borges). Por esse motivo, o 4º Festival Curta Fantástico, o CineFantasy, realiza amanhã uma sessão especial para homenagear Mansur, um dos diretores que mais realizou filmes na Boca do Lixo de São Paulo. Serão exibidos três filmes do diretor e produtor, a partir das 15h, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), na Rua Álvares Penteado, 112, Sé, região central de São Paulo.

Belas e Corrompidas (1977): Uma bela mulher começa a praticar assassinatos em série inspirada no caso de Landru, um serial-killer francês, com a ajuda de sua capacha horrível e corcunda, levam as vítimas a beira da loucura misturando sadismo, erotismo e morbidez gótica ritualística, logo passam a ser alvo de perseguição policia devido aos excêntricos eventos. Este filme contém cenas chocantes. Com Eudósia Acuña, Carmem Angélica, Carlos Bucka, Maria Isabel de Lizandra, Valéria D'Ellia, Paulo Domingues, Abrahão Farc, Márcia Fraga, Edward Freund, Heitor Gaiotti, Ênio Gonçalves, Stella Maia, Érika Maracini, Marthus Mathias.

Ritual Macabro (1990): Raro e valioso livro contendo informações sobre antigos rituais indígenas de pajelança é roubado por integrantes de grupo de teatro. Eles planejam encenar uma peça baseada nos textos, mas durante os ensaios um dos atores é possuído e começa a matar os demais, enquanto seu corpo se deteriora. Com Olair Coan, Carina Palatinik.

Atração Satânica (1990): Num balneário no estado do Rio de Janeiro, a radialista Fernanda apresenta seu programa com histórias de um assassino que extrai o sangue de suas vítimas, todas mulheres, para ressuscitar sua irmã morta. O que Fernanda não sabe é que sua história está realmente acontecendo, e tais assassinatos têm origem num culto de magia negra realizado 14 anos atrás, em que um casal de crianças foi entregue ao demônio. Enquanto tem um caso com o oficial de Marinha Lionel, Fernanda continua com seu programa, e as novas mortes levam a polícia a torná-la suspeita. Com Gabriela Toscano, Ênio Gonçalves, Emília Maser, André Loureiro, Olair Coan, Cláudia Alencar, Cláudio Curi, Antoine Rovis, Vera Zimmerman.

2.11.09

Entrevista histórica 3: Walter Gabarron

Mondo Cane publica hoje a terceira parte da entrevista com o ator Walter Gabarron, um dos mais atuantes da fase explícita do cinema da Boca do Lixo de São Paulo. Veja também a primeira e a segunda partes do bate-papo entre Gabarron e o escriba deste blog.

Você tem algum fato marcante ao longo de sua carreira que gostaria de comentar?
Em cinema o que eu posso dizer é que só não fui passivo. Já fiz cena com travesti, com homem, com mulher. Então eu já fiz de tudo. Tudo o que você possa imaginar. Sexo eu já fiz praticamente tudo. Só não dei o..., né, porque o resto...

A visão de uma pessoa que faz sexo profissionalmente muda em relação ao sexo na vida pessoal dela? Fazer sexo torna-se uma coisa sem graça?
Acaba. Você não vê mais graça em nada. Uma pessoa "normal" automaticamente se excita quando vê uma mulher nua, uma coisa natural. Para mim, ver uma mulher nua, às vezes é como não estar vendo nada. A menos que seja uma coisa que eu não vi na vida. E é difícil. Todas (as mulheres) são iguais.

E depende da circunstância também.
O cara paga e entra no teatro. Quando vê a menina pelada, ele já está excitado. No meu caso não, é preciso muito mais para isso. Você fica muito frio. Não só o homem, como a mulher. A mulher que faz sexo explícito se torna muito fria. Ela coloca outros valores, o sexo fica em 10º plano.

Você tem filhos?
Um casal. Minha filha vai fazer 18 anos e o menino, 16 (hoje, os filhos de Walter são 12 anos mais velhos).

Você continua casado com a Eliana?
Estou desquitado, separação consensual. Mas a gente se dá super bem. Moro com meus filhos. Eles hoje não aceitam mais que eu faça (sexo explícito). Mas o que está feito, está feito. Eles não gostam quando estão comigo na rua e de repente alguém me reconhece. Eles ficam meio constrangidos. Outro dia passei com meu filho na Avenida Ipiranga (Centro de São Paulo) e tinha dois gays lá, que disseram: "Olha o carinha do cinema. Gostoso! Pauzudo!". Sabe aquela coisa bem de viado? E o X. (diz o nome do filho) do lado, ele ficou super sem graça. A X. (diz o nome da filha) nem fala, ela não gosta nem que o namorado saiba. Outro dia em casa, ele estava lá e passei um filme meu, não pornô, para ele ver. Depois que ele foi embora, a X. chamou minha atenção porque ela não quer que ele saiba que eu sou deste meio. É um preconceito por parte dela. O X. já nem tanto. Mas ela não gosta nem um pouco.

Talvez por ele ser homem.
Acho que sim, porque ele está doido para fazer 18 anos e vir aqui (no Teatro Orion).

Soube por meio de uma coluna do Arnaldo Jabor que a sua ex-esposa virou religiosa.
Saiu na coluna do jornal falando a respeito dela quando fez o filme Cléopatra. E depois, essa mesma citação é publicada no livro dele. Ela parou mesmo, virou Testemunha de Jeová, não quer nem saber disso. Aliás, ela tem nojo disso.

Faz tempo que ela se converteu?
Foi nas filmagens de Cléopatra. Exatamente 11 anos (essa entrevista com Gabarron é de 1997).

E há quanto tempo vocês estão separados?
Faz um mês hoje (não lembro o mês da entrevista, mas foi no primeiro semestre de 1997). Legalmente foi agora, um mês atrás.

E mesmo com ela tendo se convertido há muito tempo atrás, você continuou atuando no meio pornô.
A gente ficou esse tempo junto tentando. Eu tentando entender a religião dela, que eu não entendo até hoje e ela tentando entender o porquê de eu ter continuado. Ela queria que eu me convertesse ou pelo menos que eu largasse disso, partisse para outra. Mas é difícil. Se a gente tivesse uma situação melhor de trabalho, ainda dava. Mas é difícil.

(Continua)

30.10.09

Sobre loira e lobos

Os jornais de hoje repercutem a história da loira que foi chamada de puta e ameaçada por centenas de alunos dentro da Universidade Bandeirantes (Uniban), campus São Bernardo, no ABC, Grande São Paulo, porque estava usando um microvestido. Mas o fato foi divulgado dois dias antes pelo blog do mano Fausto, responsável também pela melhor análise do caso, conforme observou o jornalista Marcelo Soares em seu blog.

Para quem saiu do planeta e não sabe do que estamos falando, segue abaixo a matéria "Taleban na faculdade" (ótimo título), publicada hoje na Folha de S.Paulo. Notem que foi um bando de recalcadas quem deu início à confusão ao intimidar a voluptuosa loira no banheiro. Para a vítima, o grupo de garotas agiu por inveja e incitou os garotos a participarem da balbúrdia. Admira saber que as formas da loira também tenham causado tanta repulsa aos rapazes da faculdade. Por isso, esses caras já foram batizados de "unibambis" em alguns fóruns na internet.

Taleban na faculdade
Em universidade de São Bernardo, multidão de alunos persegue colega de microvestido, que só consegue sair escoltada pela PM

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

MARLENE BERGAMO
REPÓRTER-FOTOGRÁFICA

Pu-taaa! Pu-taaa! Pu-taaa! Cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirante de São Paulo, campus de São Bernardo, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, ameaçar de estupro, cuspir. Tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de turismo, 20 anos, 1,70 metro, cabelos loiríssimos esticados e olhos verdes, que compareceu à escola em um microvestido rosa-choque, pernas nuas com pelinhos oxigenados à vista, salto 15, maquiagem de balada, na quinta-feira da semana passada (22).
Michele Vedras (nome fictício inventado por ela em um blog) só conseguiu sair da escola sob escolta de cinco soldados da PM, duas mulheres inclusive, que tiveram de usar spray de pimenta para conter os mais exaltados e abrir caminho entre a massa. Vídeos do ataque circulam pela rede, um deles intitulado "A Puta da Uniban".
O microvestido rosa-choque de Michele, naquele dia, andou de ônibus -no total, a moça gasta duas horas para ir e voltar da faculdade. Mereceu elogios -"Gostosa!"- durante o trajeto. O mesmo vestido foi usado na festa de aniversário da sobrinha de Michele, uma festinha em família. Mas, na Uniban, onde a moça chegou às 19h45, o tempo esquentou.
Estudantes de outros cursos que não os de turismo, entrevistados pela Folha anteontem, criticaram Michele. "Ela veio provocar." "Ela andava rebolando." "Deixou cair uma carteira, de propósito, só para ter de se agachar." "Aquilo não é roupa de vir à faculdade."
Estudantes do curso de turismo ouvidos pela Folha defenderam a colega. "Ela sempre anda assim, de um jeito ousado." "Ela faz esse estilo mulherão mesmo." "Ela é avantajada, sim. Mulheres com a autoestima lá embaixo morrem de inveja." "É uma vergonha para a escola ter alunos assim. Parece que esses caras nunca viram uma mulher."
Desfile na rampa
O prédio da faculdade de turismo tem um átrio central cercado de rampas por todos os lados. Quando Michele chegou à escola e começou a subir uma rampa, os rapazes ficaram paralisados. Alguns conseguiram se mexer. Mas para ir ao prédio vizinho, chamar colegas para ver também. A pequena multidão, até aí, tinha cerca de 200 pessoas, segundo um estudante. Muitos assobiavam.
Michele achou melhor sair da rampa no segundo andar e usar a escada para chegar ao terceiro, onde fica a classe dela.
As aulas começaram. Às 20h30, a jovem resolveu ir ao banheiro. Uma colega de classe fez questão de acompanhá-la, receando algum problema. "Eu estava com receio, mas nem podia imaginar o que viria daí para frente", disse Kelly Andrezzi dos Santos, 19. De repente, algo como 20 garotas de outros cursos invadiram o banheiro. Queriam obrigar Michele a vestir uma calça, xingavam-na, diziam que ela estava provocando, "causando".
A confusão foi a senha. Rapazes saíam de suas salas e se aglomeravam na porta do banheiro das mulheres. O professor Rubens, de Desenvolvimento Gerencial, que dava aula para a classe de Michele, teve de sair da sala em operação de resgate. Foi acompanhado por colegas de turma.
"A gente teve de distribuir tapas nas mãos dos meninos, que tentavam enfiar o aparelho celular no meio das pernas [da Michele], para tirar fotos", lembra a amiga Amanda de Sousa Augusto, 19, aluna da mesma classe. "Foi uma agressão, uma injustiça. A Michele é uma superboa pessoa."
A turma do professor Rubens voltou para a sala e se trancou nela. A essa altura, a maioria dos garotos dos dois prédios da Uniban já tinha saído de suas classes. Eles revezavam-se no visor da porta, pulavam para alcançar uma janela mais alta.
O coordenador de curso subiu até a classe sitiada. Pediu que Michele fosse embora. Que ela vestisse o jaleco dele ao sair. E foi-se. Michele não quis sair.
O namorado ia buscá-la no fim do período de aulas -iriam juntos a uma festa.
Presos na sala de aula, a turma e o professor ouviam os estudantes lá fora gritando. "Solta ela, professor! Deixa pra nós." "Vamos estuprar!" Colegas de classe colaram folhas de fichário por dentro da janela, para evitar os olhares.
A essa altura, Michele chorava, desmanchando a maquiagem. Um chute na porta, a maçaneta voou. Machucou o professor. Três seguranças se apresentaram na sala. O mais graduado dirigiu-se à moça: "Bonito, né... Vir à faculdade dessa maneira". Ele queria que Michele saísse naquele momento, mas a representante de classe não permitiu. Achava que a colega corria risco. Chamou o 190.
"Seus coxinhas [PMs], vão levar a gostosa?", um aluno uivou no ouvido de A., um dos policiais que atendeu ao chamado.
Quando Michele passou, escoltada, na frente da sala dos professores, uma docente fez questão de sair. Com uma careta, perguntou: "É essa a fulana?".
Na catraca da escola, sempre sob a escolta policial, Michele viu entre os que a agrediam uma menina com o celular na mão, fotografando a sua vergonha: "Ela pega o ônibus comigo todo dia. Sempre quietinha.
Mas naquele dia, ela atacava irada: pu-ta, pu-ta. Não entendi por que tanta raiva".
Filha de uma dona de casa e de um supervisor de serviços, ambos apenas o primário completo, Michele tem um irmão de 32 e duas irmãs (30 e 16). O pai é quem paga os R$ 310 de mensalidade. Mora em um bairro popular em Diadema. Já trabalhou em um mercadinho.
Michele não pretende abandonar a faculdade. Hoje, ela comparece pela primeira vez à Uniban, desde o episódio, para depor em uma sindicância que apura o ocorrido. A jovem tem ficado reclusa. "Sempre ando arrumada, salto alto e maquiada. É assim que me vejo. É assim que eu sou. Mas, desde aquela quinta-feira, não consigo mais ser quem eu era. Só me visto de calça e camiseta e a maquiagem ficou na gaveta", disse.

27.10.09

Atriz global defende pornochanchadas

Os diálogos escassos podem dar a falsa impressão de que Yolanda, mãe de Ariane (Christine Fernandes), é novata em novelas. Ledo engano. A intérprete da personagem da novela "Viver a Vida" é Sandra Barsotti, protagonista de sucessos na TV na década de 70, e que, surpreendentemente, ficou 33 anos afastada do horário nobre.

"Manter-se na TV depende de muita disposição. É um tal de ligar para diretor, ligar para autor...", justifica a atriz, que assumiu a personagem a convite do produtor de elenco Luiz Antonio Rocha. "Ele trabalhava na Record quando me chamou para trabalhar lá. Só não pude aceitar porque movia um processo contra a emissora", afirma, referindo-se à ação por uso indevido de imagem que ainda corre na Justiça.

Segundo Sandra , o programa "Fala que eu te escuto", da Igreja Universal, utilizou-se de cenas suas na novela "Velas de sangue" (Record, 1997) para tratar sobre exorcismo. "Não me arrependi. O que eles fizeram foi um desrespeito". Sandra admite que esse temperamento pode ter prejudicado sua carreira. Por conta disso, fez alguns "inimigos".

Walter Avancini, diretor morto em 2001, foi um deles. "Trabalhava em Portugal quando ele me convidou para fazer uma novela na Tupi. Me convenceu a voltar ao oferecer um salário três vezes maior do que eu ganhava quando havia deixado o país. Só omitiu que a inflação tinha camuflado esse aumento. Fiquei possessa".

Aos 57 anos, Sandra defende as pornochanchadas, gênero que a lançou ao estrelato. Foi pelo sucesso dela em filmes do tipo que foi chamada para estrelar "O Casarão" (1976), clássico da teledramaturgia brasileira. "Hoje qualquer novela das seis tem cenas mais pesadas", compara a atriz, que nota certa diferença na maneira como se faz TV hoje. "É engraçado como os jovens cumprem um ritual para entrar em cena. Fazem treino de voz, vários exercícios... Antes era tudo mais simples", diverte-se.

(Matéria de Juliana Alencar publicada no jornal Diário de S.Paulo em 20/10/2009)

Clique aqui para conferir a filmografia de Sandra Barsotti e aqui para ver um blog dedicado à atriz.

1.8.09

Entrevista histórica 2: Walter Gabarron

Mondo Cane publica hoje a segunda parte da entrevista com o ator Walter Gabarron, um dos mais atuantes da fase explícita do cinema da Boca do Lixo de São Paulo. Na foto ao lado, Gabarron aparece entre as atrizes Paula Sanches (à esquerda) e Cláudia Wonder, no filme "Sexo dos Anormais", dirigido em 1984 por Alfredo Sternheim.

Como sua família reagiu quando você começou a fazer filmes pornô? Teve algum problema?
Da família exatamente não. Porque eu sou órfão de pai e mãe. Então eu considero família pai e mãe. Fui criado separado dos meus irmãos. Mas quando saiu em 84 uma matéria sobre mim no jornal, acho que foi a primeira colorida do NP (Notícias Populares): "Marido e esposa ganham a vida fazendo sexo". Eu atuava com minha mulher (no cinema). E a matéria saiu bem grande. Foi um choque. Meus tios ficaram furiosos. No dia que saiu a matéria, eu fui para o interior, onde eles (tios) moram. Cheguei lá, tinha uma festa. Cheguei e eu não sabia se entrava ou se voltava pra rodoviária, porque a recepção foi péssima. Eu tenho uma tia que é freira. Ela foi quem quebrou o gelo, "vamos entrando", tal. Entrei e então entendi a situação. Este jornal estava bem na mesinha. Aí deles eles foram entendendo. Passaram a entender que era um trabalho artístico, que era uma coisa profissional.

Onde você nasceu?
São Paulo.

Mas a família é do interior?
Interior de Jaú. Eu fui criado lá. Fui criado em Jaú até os 12 anos. Depois que eu vim para São Paulo para morar com meu pai, pois a minha avó, que me criava, morreu. Quando fiz 14 anos, meu pai morreu. Aí eu caí no mundo, fiquei sozinho. Nunca dei muita importância pro lado de família não.

Trabalhar com teatro (infantil) foi seu primeiro emprego?
Não. Antes disso fiz um curso no Senai, me formei em eletricidade. Fui secretário, um monte de coisa.

Mas chegou a exercer a profissão?
Não sei nem instalar uma lâmpada hoje.

Ficou só no curso mesmo.
Só no curso. Não gostava, eu fiz exatamente por causa deste negócio de família: "não, tem que ter uma profissão". Aí eu fui e fiz. Me formei, só que o diploma está enfiado em uma gaveta não sei onde.

As pessoas que trabalham pela primeira vez numa peça pornô chegam com algum bloqueio pra desenvolver o papel? Como é que você faz para quebrar esse bloqueio deles? (Nota de Mondo Cane: na época, Walter Gabarron coordenava as apresentações no Teatro Orion)
Bem, a inibição pra teatro... Principalmente para fazer uma cena de sexo no teatro ao vivo, o cara leva, se ele nunca fez nada, uma semana (pra perder a inibição). E mesmo assim, às vezes não consegue, desiste.

Aí você vai fazendo ensaios com ele até botar ao vivo...
O ensaio é feito em cena mesmo, com o público, porque não tem como (ser o contrário). De repente o cara consegue (fazer sexo) sem ninguém (olhando), mas quando ele vê 10 pessoas na platéia não consegue.

No teatro, para a mulher o trabalho é mais fácil, sendo que o homem tem a obrigatoriedade de ter uma ereção...
O homem é o seguinte: ou sobe ou não sobe.

Se não subir, como é que faz na hora? Como que improvisa?
Neste caso eu tenho bastante experiência. Então eu tinha (para escolher) todas as posições na época que eu fazia (peças pornôs). São 20, 30 posições. Dentre elas eu escolho aquela que não mostra (o órgão penetrando). Eu faço um simulado muito bem feito e às vezes o pessoal não percebe. Agora quem não tem a manha é vaiado, é brocha daqui, brocha dali. E acontece, porque tem hora que você tá com dor de cabeça, não tá legal, você não está bem, o pau não sobe mesmo. Quanto mais a menina chupa, mais ele cai, entendeu? Aí o cara é vaiado mesmo.

(Continua)
Veja a primeira parte aqui.

30.7.09

Atriz lançada por David Cardoso morre durante gravação de filme

Uma atriz que estava iniciando a carreira no cinema da Boca do Lixo teve um final trágico quando participava de seu segundo filme. Waldirene Manna morreu aos 18 anos, no dia 5 de março de 1988, quando atuava na filmagem de "Feitiço do Gavião", do diretor Rubens da Silva Prado. Um ano antes da tragédia, Waldirene foi convidada por David Cardoso para participar do filme "O Dia do Gato".

Rubens da Silva Prado foi acusado pela morte de Waldirene, ocorrida em uma cachoeira na cidade de Guararema, na Grande São Paulo. Prado corria o risco de pegar uma pena de seis a 20 anos de prisão depois que a promotora Eliana Passarelli Lepera, da Vara Distrital de Guararema, ofereceu denúncia contra ele, no dia 14 de novembro de 1989, pelo crime de homicídio doloso (com intenção de matar).

Segundo informações da promotora na época, Prado fez com que Waldirene se embrenhasse nas matas que circundavam a Cachoeira do Putin durante a gravação de uma cena. O diretor teria pedido para Waldirene ficar de pé sobre uma pedra limosa, em local perigoso e de difícil acesso, perto da cachoeira. A atriz escorregou e caiu de uma grande altura, morrendo afogada. Seu corpo nu foi encontrado entre as pedras. Não havia rede ou qualquer dispositivo de proteção para conter a queda da atriz.

Para a promotora, Prado assumiu o risco de provocar a morte da atriz ao não oferecer segurança para ela. "No empenho de ver o filme realizado de acordo com sua idealização, levou à frente a execução (do filme), ante a possibilidade de ocorrer uma tragédia. Com isso, deverá agora responder por crime de homicídio simples, capitulado no artigo 121 do Código Penal", noticiou o DIÁRIO POPULAR na época em que a promotora ofereceu denúncia contra o diretor.

A promotora pediu que fossem ouvidas no processo 21 testemunhas, a maiora delas integrantes da equipe cinematográfica, além da mãe e de uma irmã da vítima. O jornal O GLOBO também noticiou a morte de Waldirene Manna durante as filmagens de "Feitiço do Gavião". Mondo Cane não encontrou mais registros do caso em arquivos da grande imprensa. Pesquisadores de cinema afirmam que Prado evita comentar o assunto até hoje, tema tão delicado para ele quanto os pornôs que dirigiu após o sucesso em filmes do gênero faroeste.

20.7.09

Entrevista histórica: Walter Gabarron

Walter Gabarron foi um dos atores mais atuantes da fase explícita do cinema da Boca do Lixo de São Paulo. Ele atuou em mais de 100 filmes, a maioria deles ao lado da ex-mulher Eliane Gabarron. O casal se conheceu em uma companhia de teatro infantil em 1975 e nos dois anos seguintes fez pontas nas novelas "Éramos Seis" e "Tchan: A Grande Sacada", ambas na TV Tupi. O casal também fez uma pequena participação no filme "Perversão - Estupro" (1978), de José Mojica Marins. Com a chegada do cinema de sexo explícito na Boca no início dos anos 80, Walter e a mulher resolveram abraçar o gênero, trabalhando com vários diretores. Pouco antes da extinção das produções da Boca, Eliane largou a carreira ao se converter em testemunha de Jeová, mas Walter continuou trabalhando como "expliciteiro" em peças de teatro. Walter não chegou aos 50 anos de idade. Um câncer raro (Linfoma de Hodgkin) tirou a vida dele em 2005, aos 47 anos. Mondo Cane presta um tributo ao ator com essa entrevista que encontrei perdida em um baú de casa. Eu e um amigo estávamos passando em frente ao Teatro Orion, na Rua Aurora, República, região central de São Paulo, no começo de 1997, quando reconheci Walter parado na porta do estabelecimento. Eu estava no segundo ano de faculdade e perguntei se poderia entrevistá-lo. A entrevista será publicada em várias partes, uma vez por semana, pois o material é extenso. A foto ao lado foi tirada do filme "A Menina do Sexo Diabólico" (1987), dirigido por Mário Lima.

Quando você começou sua carreira?
No meio artístico estou desde 1975. Comecei fazendo teatro infantil, de 75 a 77. Aí eu parei. Voltei em 1983 e já estava na época do filme erótico. Fui convidado, pensei bem e resolvi fazer o primeiro: "O Delicioso Sabor do Sexo" (1984). Foi feito com o nome de "Mulher... Sexo... Veneno (1984), só que aí não foi possível (a minha cena entrar no filme) e eles (diretor e produtor) guardaram a filmagem. O que foi filmado (comigo), depois jogaram no outro filme, "O Delicioso Sabor do Sexo". Aí o pessoal descobriu e toquei adiante.

O que ocasionou a interrupção de 1977 a 1983?
De repente eu casei, tive uma filha e viver de teatro (na época eu fazia mais teatro, o cinema mesmo comecei a fazer em 1983), principalmente infantil, é impossível. Aí eu larguei (a carreira de ator) e fui trabalhar normalmente.

No tempo que você trabalhava com teatro infantil era de forma independente?
Era uma companhia. Companhia Teatro Infantil Paulistano. Era uma companhia profissional, nós levávamos peças ao Teatro Ruth Escobar, Teatro Aquarius, que existia na época. Então a gente tinha uma temporada, viajava pra Santos, pro Interior, fazendo peças como A Gata Borralheira.

O trabalho teatral começou por influência de alguém ou...
Eu entrei no teatro através de uma agência de empregos. Fui procurar emprego, na época do Exército não conseguia emprego. Fui em uma agência de serviços temporários e me indicaram a Companhia Teatro Infantil Paulistano pra fazer uma temporada de festa junina no Playcenter. Pra dançar quadrilha, esse negócio todo, casamento caipira, tal. Então como estava sem fazer nada e o cachezinho era bom, eu fui. Aí me interessei pela coisa, a dona da companhia gostou de mim, conheci minha mulher (Eliane Gabarron) lá. Entrei através de uma agência de emprego, quando eu nem pensava em mexer com esse tipo de coisa.

E quanto tempo você trabalhou com teatro e cinema pornô? Primeiro foi o cinema, não?
Primeiro foi o cinema, de 83 a 89. Foi quando o cinema funcionava, era um filme atrás do outro, uma produção atrás da outra. Aí em 89 parou completamente.

Plano Collor?
Não sei o que foi. Os produtores disseram que o exibidor queria uma porcentagem muito alta da renda, então para eles não compensava. Compensava mais pegar um filme de fora e aumentar um pouquinho, porque o filme de fora é menor, é curto, e colocavam um enxertozinho qualquer para lançar aqui. Para eles (produtores e exibidores) é mais negócio pegar um filme de fora do que produzir aqui.

Fale um pouco sobre o mercado de vídeos nacionais, comparando com o externo hoje. O vídeo nacional está prejudicado ou está ganhando espaço? Como é agora em relação há 10 anos?
Hoje em dia os filmes nacionais estão um porcaria. Estão pegando um elenco de péssima qualidade, pessoas que de repente só sabem fazer sexo, e mal. Então não consegue crescer nunca.

Quando atuava, você obteve algum tipo de reconhecimento? Como foi a repercussão dos filmes?
Foi bom, tanto que ando nas ruas e o pessoal reconhece. Em termos de grana, é aquela coisa, nós estamos no Brasil. Então você ganha para fazer um filme, acabou o filme você tem que fazer outro, senão você não ganha. Você não tem bilheteria, não tem porcentagem nenhuma, o sindicato não faz porcaria nenhuma pelos atores. Sou sindicalizado, tenho DRT, sou profissional, mas não há apoio nenhum.

Um dos principais problemas, hoje, do vídeo pornô brasileiro é a qualidade dos atores...
Com certeza.

Além disso, qual seria outro grande problema?
É o preconceito muito grande que se tem do produto brasileiro. Ninguém gosta. Prefere o de fora. Você tem uma mulher bonita aqui fazendo (pornô), eles (consumidores brasileiros) preferem uma magra peituda lá de fora. Não tem jeito. Eles (os gringos) alugam um iate, filmam no iate. Aqui não, alugam um (apartamento) quitinete vagabundo e vão fazer o filme. São duas ou três posições. Aquela coisa maçante, sabe, não é mais como no início do cinema. Porque na minha época, eles faziam o filme para o cinema. Depois de pronto para o cinema, eles passavam para o VHS. Depois tentaram filmar diretamente para o vídeo. Ficou uma porcaria. Fiz uns 4, 5 filmes. Uma merda.

E quantos filmes você fez ao longo da carreira?
Mais de 100. (Foram) 115, 120, por aí.

E todos saíram em vídeo no Brasil?
Todos foram feitos para o cinema e depois passados para vídeo.

(Continua)